“— Oi.
— Oi.
— Posso me sentar?
— Já sentou.
— Sinto tua falta.
— Eu também.
— Então, o que te impedia de vir atrás?
— Apenas eu sentia, tu sabe.
(ela acende um cigarro)
— Quer?
— Não, obrigado. E desde quando tu fuma?
— Desde quando eu sinto falta de alguém que pouco se fode.
— Como assim? Tu tá sendo injusta, na boa, sou sempre eu que corro atrás de ti, sempre eu que te procuro…
— E sempre tu que vai embora.
— Tu tá diferente comigo.
— Nada. É que eu cansei das tuas indas e vindas, da tua indecisão e da tua canalhice.
— Eu ainda te amo, mulher, tu sabe disso.
(ela dá um trago e desvia o olhar)
— Eu lhe perdi mesmo desta vez, certo?
— Tu nunca me teve. Nós eramos paixão, orgulho, medo, tesão, saudade, mas amor… nós nunca fomos. Amor é outra coisa. O amor é clichê, é um beijo roubado no meio da briga, é vontade de ficar junto, de casar, é planejar um futuro juntos, ser forte, é quando por mais gostosa que seja a guria que passe na tua frente, tu não a deseje… simplesmente porque tudo o que tu quer está bem na tua frente. O amor é entrega, sabe? Mas tu não é forte o suficiente para se entregar para algo que te dome.
“E quer saber? Te amo. Te amo de um jeito que eu tento explicar e não sei. Palavra fica presa. Engasgo, afogo e uso palavras pela metade. Na hora H sempre falta uma vogal. Mas quer, de novo, saber? Meu coração nunca foi pela metade: sempre foi-inteirinho-seu.
“Fiquei triste o dia inteiro, aí você me procura, inevitável, acabei sorrindo ao ver você falando comigo. Droga, você também não me ajuda. Queria tanto ficar bem sem você, sem falar, sem contato, mas ao mesmo tempo quase morro quando você não me conta como foi seu dia.
“Sorrisos nascem em meu rosto,
tal como flores brotam nos túmulos;
—O que és belo reveste o vazio.
“Até na hora de fazer uma prova me vem você. Tinha lá, bem no meio da folha, no final da frase ‘eles se amavam’, eu me distraí e disse em voz baixa ‘A gente também’.
“Quando somos novos demoramos um pouco pra entender que nem sempre as pessoas são honestas consigo mesmas e com os outros. Demonstrar sentimentos, falar o que pensa, abraçar quando se tem vontade, deixar a lágrima sair rodopiando sem a menor vergonha, tudo isso é difícil. Ela sabia que era, de novo a falta de ar. Ela sentia como se o peito fosse um cadarço de tênis, você amarra, se tá frouxo você puxa, aperta, dá o nó…